“As coisas melhoraram?”
Perguntou um moço... na mensagem que veio de um futuro antes buscado.
“Estais na UTI?”
Assim, com essa pergunta,
também fui interpelada, mas por outro moço,
porque confundiu-me com uma enfermeira quando saí para lanchar, ver estrelas e luas.
Não moço, quase respondo eu, em uma ladainha decisória:
Estou cuidando da minha mãe,
que teve um derrame e não pode engolir nem falar
e respira muito mal.
(E foi nisso pensando que passei pela cena do menino Jesus ainda no berço.)
Creia-me...
A primeira irmã... a mais velha, não pode: perdeu o marido há quatro meses
e ainda não entendeu essa e outras passagens.
A segunda... não pode: cuida do marido que,
- quase vegetativo e sempre dependente –
necessita de sua vida.
A terceira... não pode: está no céu a fabricar anjos de feltro e reciclar a própria natureza.
A quarta não pode porque
- desde que dizem que endoideceu, e foi salva do hospício ao ser provada sua sanidade por um trabalho de tricô -
cuidou incansavelmente dessa mulher que gerou 10 filhos, e que de lá a tirou.
A sexta não pode mesmo, a menor de todas nós: porque mora longe
e precisa do trabalho árduo para o conforto...
Posso eu, a quinta dessa fileira de mulheres,
uma vez que trago muitas palavras e das dores apenas a lembrança da frase de um homem:
“Quem vai lavar minha roupa?”
Como se eu o poder da lixívia tivesse.
Assim... posso eu cuidá-la: eu que fui liberada dos sofrimentos desse mundo,
e penso que sei
do que sentem as ondas,
do que repousa e é tecido nas nuvens,
do que umidifica a chuva,
do que empurra o vento e
do que aquecem e queimam as fogueiras.
Posso eu, creia-me:
Eu que sempre espero o que vem
para acatar em mãos de moldar momentos...
Registrar as pulsões estéticas e concretizar em memória sensível o Belo, o Bom, o Bem, o Feio, o Ruim e o Mal é confirmar que "Viver é perigoso".... Escrever? Ler? A possibilidade de lançar-se em sutil vertente estabiliza o aparente intangível. É preciso entregar-se, como Narciso, mas remexer a água, tatear palavras, olhar seus significados e deslizá-las pelos dedos e boca, sorvendo-as, pois essenciais. Moldado o texto, recria-se o mundo; é tecida a aderência no real.
ENTRE, VENHA NAVEGAR
ENTRE, VENHA NAVEGAR
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